Saturday, November 04, 2006

Bela Vista a ferros


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     O conjunto de habitações do Bairro da Bela Vista foi "pensado" ainda antes da Revolução de Abril de 1974, como um grande conjunto habitacional promovido pelo Estado, integrado na lógica de planeamento da economia do IV Plano de Fomento(*), onde se misturavam duas filosofias: o "paternalismo" do Estado Novo e o "desenvolvimentismo" dos tecnocratas marcelistas. A Bela Vista, com as suas habitações sociais de grande qualidade (construtiva, mas também de localização), destinava-se ao operariado de luxo que iria trabalhar no pólo industrial da Mitrena (Setenave e quejandas). Ambas as coisas foram por água abaixo: as Setenaves falidas, e a Bela Vista transformada em alojamento de famílias de bairros de barracas e refugiados das Colónias — que entretanto se tinham enfiado em tugúrios em ruínas tais como o Convento de S. Francisco e o "Casarão do Bonfim".

     A concepção geral das edificações ficou a cargo do arquitecto José Charters Monteiro, um discípulo do italiano Aldo Rossi, que desenvolveu uma tipologia de prédios baixos, muitos deles com grandes pátios interiores. Também estava previsto um "bacalhau" rossiano, um longuíssimo edifício que descia ao longo da actual Bela Vista, paralelamente ao rio — mas que nunca chegou a ser construído.
     A planificação "soviética" da urbanização chegou ao ponto de detalhar, caso a caso, qual o destino das lojas comerciais (aqui uma padaria, ali uma mercearia, etc.) e, para os canteiros de flores, desenharam-se elegantes áreas de plantas devidamente identificadas pelos seus nomes latinos. De toda esta euforia filosófico/urbanística resultou um melting pot de difícil qualificação — a avaliar pelos numerosos e sucessivos estudos "científicos" que se fizeram e continuam a fazer para caracterizar a mole humana que ali habita (neste momento estão mais dois em curso).
     Uma das "piadas" arquitectónicas mais cruéis que conheço reporta-se às galerias - grandes varandas compridas - que ligam os interiores de muitos dos edifícios. Tratava-se de promover a boa convivência dos moradores. Era uma versão tecnocrática dos "pátios" neo-realistas, cheios de povo a "conviver" em grande promiscuidade, mas agora elevados à dignidade do tal operariado de luxo. E, em lugar dos "caixotes" de apartamentos que não ajudavam à comunicação entre vizinhos, teríamos aqui edifícios amigáveis que promoveriam o convívio e a boa vizinhança. Cada pessoa, para chegar a sua casa, teria de percorrer as longas galerias, convivendo e confraternizando com os seus irmãos de espécie.

     Ah pois é! Mas os ingratos dos pobres que acederam às habitações não foram na conversa. Talvez lhes tivessem faltado umas palestras do sr. Rossi com tradução do sr. Charters, mas ninguém se lembrou de lhes explicar a tal "teoria da convivência". O resultado é que os moradores, sempre que puderam, enxamearam as galerias de marquises e portões, gradeados e armadilhados com pontas de ferro ameaçadoras, fechados a cadeado — tudo para impedir a circulação nas galerias. E nem o facto de algumas pessoas, para chegarem a casa, terem de passar por mais de um portão, os demoveu. Uns ingratos, este moradores...
     Monumento à estúpida racionalidade dos planeadores, ou, quem sabe, futuro museu dos gradeamentos e da privacidade conquistada a ferros, aqui ficam alguns (poucos) exemplos da criatividade popular.

   
   

(*) O IV Plano de Fomento entrou em vigor no início de em 1974; no programa do Primeiro Governo Provisório constava a sua "revisão imediata, no quadro de uma estrutura participativa, transformando-o num instrumento efectivo de promoção social e desenvolvimento."

2 Comments:

At 9:22 pm , Blogger Paulo Pisco said...

Uma abordagem muito interessante e informada. Diga-me se tem, por acaso, alguma bibliografia sobre o assunto? Estou a pensar escrever sobre a impossibilidade de "regeneração urbana" da Bela Vista e arredores.
No meu entender não há PROQUAL que lhe valha.
Diga-me qualquer coisa.

Já agora para quando passei até ao convento(s)?

Cumprimentos.

 
At 10:20 pm , Blogger J.A. said...

A Bela Vista é um universo de lições, mas pode ser que a cidade não as queira aprender. O caminho mais fácil parece ser a atribuição de culpas aos moradores ou ao partido que esteve antes na Câmara. Uma vez ouvi uma crítica destas ao presidente Carlos Sousa numa reunião com a população. Memória curta. No final da reunião disse-lhe: mas olhe, quem fez os realojamentos foi o seu Partido (Egas Sales no tempo do presidente Orlando Curto, e depois a gestão Francisco Lobo).

Quando se fará a avaliação do trabalho das instituições de solidariedade social que ali se instalaram, gratuitamente, com a justificação de que iriam resolver os problemas sociais? (algumas até optaram por aderir ao "modelo" e colocar os seus próprios muros e gradeamentos).

Não tenho nenhuma bibliografia nem conheço nenhum estudo de síntese. Sei que existe uma montanha de documentação de "estudos sociológicos" que ali têm sido feitos. Houve um grande estudo feito pelo INH de que a Câmara tinha cópias em CD, e eu solicitei a respectiva consulta em 2002, mas nunca consegui (e eu era "da casa"!)

Ainda hoje vi anunciado num jornal local um aviso aos habitantes sobre mais dois estudos desta natureza. Será que estes trabalhos chegam alguma vez a ser divulgados ou avaliados? Tudo se parece passar numa cidadela onde o cidadão comum não tem acesso.

Seria de louvar um esforço de compreensão do que se passou/passa naquele bairro, mas algo que ultrapasse a barreira das "encomendas" para alimentar ainda mais "Estado" e dependentes. Por isso saúdo e faço votos de sucesso para o seu trabalho.

 

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