Tuesday, November 21, 2006

« [...] É fim de manhã e está um dia lindo, que mais parece de Primavera do que de Outono. Entre a sanduiche de plástico de uma estação de serviço ou os salmonetes de Setúbal, é só uma questão de interiorizar que o tempo é meu e que só eu próprio, por descuido ou por hábito, posso abdicar do que é meu. O pessoal do restaurante onde me sento está justamente melindrado: parece que o Herman José disse na televisão que os salmonetes de Setúbal não valem nada, os do Algarve é que são bons. Eis uma questão complicada e para a qual não tenho resposta à mão: só sei garantir que estes são maravilhosos... E os outros também. É Novembro e estou sentado em mangas de camisa numa esplanada ao ar livre, lendo os jornais da manhã e comendo o melhor peixe do mundo desembarcado nessa madrugada. Lá fora, nessa Europa, tremem de frio, não têm tempo para almoçar e só conhecem o peixe pela forma de o cozinhar: frito ou cozido. Que triste que deve ser viver noutro país!»

Miguel Sousa Tavares
Expresso- 18.Nov.2006

5 Comments:

At 12:29 am , Anonymous Anonymous said...

O MST é um escritor com créditos firmados sobretudo, penso, na prosa. Neste texto parece adivinhar-se-lhe também uma vertente poética. Só um poeta poderá dizer que em Setúbal se come o melhor peixe do mundo! Porquê o melhor em Setúbal? Pela qualidade do mesmo? Mas ele, o dito, é igual ao que de madrugada é expedido para o portugal CECÔNDITO, PROFUNDO, no longínquo INTERIOR (Beja, Evora etc quase 100 000 000mm!)onde chega antes de a maior parte dos setubalense acordarem. Será pela técnica de o cozinhar? Se for isso não tarda que um qualquer chinês se passeie pela Av. L.Tody descubra as rebuscadas técnicas e as leve para Xangai, Cantão etc, e lá se vai o valioso "know how". Quanto ao poder disfrutar, em meados de Novembro uma refeição numa esplanada em meias-mangas, então em que permanente estado de extase viverãomarroquinos, saarianos, cabo-verdianos etc etc. Aos poetas tudo é permitido, alguém terá dito(?)

 
At 9:47 am , Blogger J.A. said...

Creio que, quando diz que se trata do melhor peixe do mundo, MST não atribui a exclusividade a Setúbal. Ele não escreve que o melhor peixe do mundo só se encontra aqui, mas apenas isto: naquele dia, ele estava a comer aqui o melhor peixe do mundo. O prazer ou êxtase das refeições nasce não só da qualidade dos alimentos e gastronomia, mas também do clima, ambiência urbana, envolvência humana: e tudo isso está ímplicito no texto. Até mesmo a possibilidade de comprovar (uma vez mais) a imbecilidade de um canastrão como o Herman José pode constribuir.

Actualmente há muitos escritores - outro é o Francisco José Viegas - a relatar estes pequenos milagres da excelência da comida que hoje se encontra em muitos locais de Portugal. Setúbal é certamente um deles.

 
At 11:00 am , Anonymous alfacinha said...

Testemunho, uma vez tinha encomendado numa casa de pasta setubalense carapaus grelhados com batatas cozidas e uma salada mista. Com certeza, um prato simples que a maior parte dos portugueses conhece desde a sua primeira memória. Mas ninguém pode imaginar o meu entusiasmo, quando ao abrir este peixe e vi o conteúdo do estômago. Camarões cor-de-rosa. Um peixe tão fresco que posso ver o que é que tinha comido com pequeno-almoço na madrugada antes de cair na rede dos pescadores. Então, confirmo Setúbal tem o melhor peixe do mundo e ainda não falei sobre a qualidade gastronómica dos seus restaurantes.

 
At 1:19 pm , Blogger J.A. said...

Já agora conto uma história passada nos anos 80, em Bruxelas. Eu estava lá de visita a uns amigos, emigrantes portugueses, malta na casa dos trinta, e resolvemos assar sardinhas no quintal da vivenda de um dos portugas. Lá arranjámos sardinhas e tintol, demos lume ao carvão (umas bolinhas pretas calibradas) e ficámos à espera. Esperámos meia hora, e nada: o carvão ardia mas não incendiava. Mais meia hora, e nada. O tempo ia passando e nós desesperávamos, humilhados com o facto de não conseguirmos assar umas simples sardinhas.

Explicação: a humidade do ar e aquele manto escuro de nuvens — un ciel si bas qu'il fait l'humilité. E foi com grande humilité que acabámos por almoçar, não as sardinhas, mas uma comida qualquer rápida feita pela dona-da-casa, uma bailarina profissional que se divertiu bastante à nossa conta.

 
At 4:58 pm , Anonymous alfacinha said...

O meu pai tinha nos anos 50 do século passado um pequeno comércio de carvão e por isso quando descreve este carvão, não desatei a rir mas tinha de suster um sorriso. Seja verdade a circunstância para fazer uma grelhada deve estar óptimo e não sob um céu como o Brel cantava. Talvez tenha salvado o nosso formoso céu grisalho e húmido a sua vida própria e dos seus amigos. Porque aquelas bolinhas de tamanho de ovos e que se chama em flamenga eierbollen são feitos de pó de carvão e alcatrão. Sardinhas grelhadas com sabor de alcatrão!Não é o meu prato favorito

Com amizade, Alfacinha.

 

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