Tuesday, March 06, 2007


Les Sucettes

     Pode um simpes chupa-chupa fazer a felicidade de uma rapariga? Talvez sim. Mas, em 1966, com os seus 19 anitos e de mini-saia, uma France Gall a cantar:
                             "Lorsque le sucre d'orge
                              Parfumé à l'anis
                              Coule dans la gorge d'Annie,
                              Elle est au paradis.
"

era certamente caso para meditar - tanto mais que o autor da canção era Serge Gainsbourg... Mas a França fingiu não desconfiar de nada (o sub-consciente é muito traiçoeiro) e, durante meses, miúdos e graúdos cantarolaram os chupa-chupas da Annie, tal como no ano anterior tinham feito com "Poupée De Cire, Poupée De Son", dos mesmos autor e intérprete. Até um dia em que o Serge foi à televisão explicar que o tema das suas canções era só um: o erotismo. Foi um escândalo e uma vergonha. Perante tanta ingenuidade Serge Gainsbourg deve ter concluído que tinha de ser mais explícito, e escreveu então "Je t'aime moi non plus".
     Sobre "Les Sucettes" vale a pena ver este video, onde o próprio Gainsbourg se diverte com a partida que pregou aos moralistas. Moralistas que estavam mesmo a pedi-las: antes ainda de ter ganho o Festival da Eurovisão com a sua "Poupée", France Gall tinha tido um êxito absoluto com "Sacré Charlemagne", uma canção infantil com uma letra idiota, onde se acusava Carlos Magno de ter sido o inventor dessa chatice que é a escola. Imagine-se: dois milhões de discos comprados pelos papás com uma canção onde uma adolescente com voz de criança se queixa:
               Quem teve a ideia maluca de inventar a escola
               Foi este Sagrado Carlos Magno - Sagrado Carlos Magno!
               Que só nos deixa livres Domingos e quintas-feiras (...)
               Devia era ter-se ocupado das batalhas e da caça
               E não teríamos agora de ir todos os dias à escola
               Aprender a contar e fazer ditados.

     A própria France Gall, numa entrevista recente, reconheceu a hipocrisia da situação criada pelo escândalo de "Les Sucettes": «A enorme inocência da canção parecia-me bizarra... Eu sabia que Serge ia gravar "Je t'aime, moi non plus" com Brigitte Bardot e que ele recorria ao duplo sentido das palavras. Mas, enfim... nesta canção nunca imaginei. Depois, quando me apercebi, isolei-me durante mais de seis meses. Estava ressentida com esta partida dos adultos. Uma traição. Porque eles, eles sabiam.»

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