Monday, July 23, 2007

Cinco livros [5]

O Canto da Missão
John Le Carré


John Le Carré continua a poduzir excelente literatura, com mais um dos seus personagens a revelar a famosa duplicidade de carácter que toda a gente sabe que caracteriza o essencial do ser humano, mas que ninguém admite para si próprio. Possivelmente tal fenómeno não voltará a ser desenvolvido ao nível da obra-prima de Le Carré, O Espião Perfeito, mas este livro não deixa, mesmo assim, de valer muito a pena. Outra das fidelidades deste romance — mais recente — é a denúncia dos interesses económicos dos paises desenvolvidos que, sob a capa da "ajuda", descobrem sempre novas maneiras de explorar até ao limite os recursos naturais dos países africanos.
Há uma novidade, contudo: as diferentes linguagens dos humanos. Uma conferência secreta que reune à volta da mesma mesa diferentes clãs congoleses e um grupo europeu interessado em "ajudar" a democracia naquele país africano, é o pretexto para uma prodigiosa encenação dos modos de comunicação, seja por recurso a diferentes línguas, seja pelo jogo de simulação e de engano. Há um intérprete de serviço, mas será que os delegados não sabem as línguas uns dos outros? Há microfones à escuta durante os intervalos dos debates — mas será que as conversas escutadas são sinceras, ou dizem apenas aquilo que se pretende que os espiões acreditem?
O personagem principal, Bruno Salvador ("Salvo"), é natural de África, filho de um missionário branco e de uma filha de um chefe tribal do Congo. Com uma infância africana e uma subsequente juventude britânica, dominando várias línguas do mosaico congolês, Salvo concentra em si as contradições do jogo de espelhos dos abutres, brancos ou negros, que sobrevoam o continente.
Suponho que a zebra da capa traduz esta luta de interesses. E a propósito de zebras (ou talvez não): alguma da nobreza portuguesa tentou usar estes bichos nas suas caleches: «Tal como qualquer outro estabelecimento utilitário da real munificência deste reino, o dos animais é mal governado e mal abastecido. Quase adoeci devido ao cheiro pestilento do sítio onde estão as bestas. O belo e antigo elefante de D. João V foi alimentado com um número insuficiente de couves; mas como aqueles que lhe reduziram a ração não lhe conseguiram diminuir o apetite, o pobre animal acabou por morrer. Já só restam três zebras e são machos; estes animais reproduziram-se neste país, e foram feitas algumas tentativas para os domar. O falecido Conde de Arcos chegou a usá-las numa carruagem aberta, mas acabaram por lhe partir duas ou três carruagens, e algumas delas morreram na tentativa de se libertarem. Era este mesmo homem que estava no camarote com o Rei quando viu o seu irmão ser morto numa tourada; imediatamente desceu à arena e matou o touro.» ("An Account of Portugal", 1765/66.)

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