Friday, September 07, 2007

Diário de uma Senhora Distinta [9]

Setúbal - 1839

     «Deixámos a povoação e o Convento sem nos determos, embora muito necessitados de refrescamento. As nossas mulas, no entanto, beberam numa elegante fonte de mármore, construída para alívio dos viajantes. Regressámos à nossa caleche, Neilson subiu para a sua mula, que parecia agora mais reconciliada com o seu cavaleiro, e iniciámos a descida sem qualquer problema.
     «Para minha grande surpresa, avistei uma planura coberta de urze, com três milhas de extensão, no extremo da qual se encontrava uma planície desagradável, ainda que cultivada, e chegámos finalmente a Mytoe [Moita], que pertence já a Lisboa, da qual dista cerca de 4 horas. O nosso guia conduziu-nos por uma estreita vereda, e avistámos sobre uma porta um letreiro indicando uma estalagem inglesa (a) - . Entrámos ali mas não vimos nada que fizesse crédito a Inglaterra. Porém, alertados pelo nosso cicerone, já nos tínhamos antes precavido com o necessário para a nossa refeição, pelo que tivemos apenas de pagar para comermos ali a nossa própria comida.
     «O rio Tejo, tal como o nosso Firth, só pode ser atravessado na maré. Mr Neilson conseguiu contratar o primeiro barco para nós, e já estávamos a subir a bordo quando dois ou três homens se atravessaram, dizendo-nos que éramos prisioneiros do Estado e deveríamos voltar atrás. O nosso guia esforçou-se por nos garantir que não era nada, mas eu não apreciei nada a aventura. Fomos levados a casa de um Juíz, que nos recebeu na sua biblioteca, mas parecendo muito incomodado com esta interrupção dos seus estudos. Embora a consideração devida ao nosso sexo por todos os homens deste país nos tenha garantido um tratamento civilizado, o nosso Juíz, ou carcereiro, era já um velho, enrolado numa grande capa e com uma cabeleira de lã na careca, que ele todavia destapou em saudação, e como não podia voltar a cobrir-se ou sentar-se enquanto nós estivessemos de pé, assim nos mantivémos até que o sr. Neilson foi levado ao Governador, do qual veio uma mensagem informando-nos de que estávamos em liberdade, embora o cavalheiro [Neilson] ficasse em prisão. Mas eu recusei terminantemente este favor e declarei que ficaria até que conseguisse pedir a intervenção dos meus amigos de Lisboa.
     «Logo que Neilson saíra de casa do juiz, este pedira que nos sentássemos, e atrevo-me a dizer que nos prestou muitos cumprimentos, o que fez com um ar revelador do maior enfado. Percebemos que nos oferecera fruta, o que, todavia, não aceitei, apenas retribuí com o meu silêncio durante mais de uma hora, tempo durante o qual o nosso condutor de caleche, o guia e o muleteiro, foram interrogados, tendo fornecido respostas que convenceram o Governador, que felizmente não era idiota, de que não tínhamos qualquer intenção de tirar a vida ao Rei ou ao Marquês do Pombal.
     «Vieram dois homens fazer o inventário das nossas características, cor de pele, cor do cabelo, e fizeram-nos tirar os chapéus para se assegurarem de que não usávamos perucas. Depois disto, foi emitido um certificado, entregue ao senhor Neilson, e fomos enviados em liberdade. Tivemos de pagar nada menos de nove xelins e nove dinheiros cada um, pelo certificado, e entretanto acabámos por perder a maré e tivemos de regressar à nossa ridícula estalagem, à espera da nova maré.
     «Foi então, pela primeira vez desde que iniciei esta viagem, que a minha calma quase me abandonou. A noite estava fria e uma chuva miudinha começou a cair. Estava também tão escuro que perdi a esperança de atravessarmos o Tejo. Embora tivéssemos pago o barco só para nós, estava meio cheio de porcos mortos, peixes e uma diversidade de artigos para o mercado, e mal nos tínhamos afastado um pouco da margem, a tripulação começou a cantar Vésperas, de tal modo que se o porco morto que estava ao seu lado os tivesse acompanhado com grunhidos, não teria conseguido tornar o concerto mais desagradável.
     «Mas adeus, o Capitão do "Packet" chama, é ele que vai levar este correio, bem como para o meu irmão. Adieu, Adieu

Excertos anteriores:
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Janet Schaw
Journal of a Lady of Quality;
Being the Narrative of a Journey from Scotland
to the West Indies, North Carolina, and
Portugal, in the Years 1774 to 1776

Notas:
(a) - "we saw wrote over a door an Anlish hot for man and bost"

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